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6 de junho de 2010

O princípio da cueca azul

No meio acadêmico, e em meio a acaloradas discussões, desenvolvemos semanalmente um grupo de estudos cujo tema principal chamamos de “socialização etílica contemporânea”. Como sou considerado monitor dessa disciplina, eventualmente devo apresentar seminários sobre novas construções teóricas que fundamentem outros trabalhos, jornadas, congressos e ciclos de debates.

Nosso grupo é formado por integrantes de diferentes formações teóricas e epistemológicas. Temos junguianos, frankfurtianos, marxistas chatos ortodoxos, marxistas heterodoxos, ex-lacanianos e o que mais a orientadora for capaz de suportar. Entre os materialistas, que não veem de forma tranquila a relativização de perspectivas e banalização da racionalidade, a questão da coerência é algo primordial.

Pautando-me por essa questão, elaborei um princípio de coerência que chamei de “Princípio da Cueca Azul Clara” ou, como ficou mais vulgarmente conhecido entre nós, simplesmente “Princípio da Cueca Azul”.

Premissa fundamental: Azul claro é a cor mais ridícula de cueca.

Esta premissa ainda não foi derrubada em discussões ulteriores à elaboração da teoria. Basta mencionar as palavras “cueca azul clara” que surge uma expressão de nojo e/ou desdém no rosto do interlocutor. Caso fosse contrariada, faria ruir o restante da elaboração. Esta afirmação é, portanto, axiomática.

Partindo da premissa fundamental, temos uma proposição com dois desfechos hipotéticos:

Proposição: O cara sai de casa com plena e total convicção de que não vai pegar ninguém. Sabe que não vai rolar nada, e que a chance de tirar as calças diante de um(a) possível parceiro(a) sexual é zero. Depois de tomar banho, deve escolher uma roupa para sair, começando, claro, pela cueca.

Desfecho 1: Escolhe uma cueca preta ou branca, nova ou em boas condições.

No Desfecho 1, nota-se que a solução é incoerente com a proposição. Por esperança ou alguma razão tão idiota quanto, a ação que caracteriza o desfecho não está de acordo com a situação. Se não vai pegar ninguém, por que sair com uma cueca boa? O Desfecho 1 sugere que a ação tem como objetivo uma consequência oposta à declaração que constitui a proposição. No caso, se dar bem.

Desfecho 2: Sai de cueca azul clara, de preferência furada e com o elástico frouxo.

No Desfecho 2, entretanto, a solução é coerente. Se não vai pegar ninguém, e sabe disso, não há razão para usar uma cueca boa. A cueca não será vista por ninguém, salvo em caso de acidente grave. O Desfecho 2 caracteriza uma ação que condiz com a proposição.

Portanto, dada a proposição, o Desfecho 2 é o único que preza pela coerência.

Poder-se-ia desferir diversos ataques a esta teoria, pela incursão de elementos adicionais ao exemplo hipotético usado em sua demonstração. Por exemplo, diriam que homem não escolhe roupa, pega a primeira que encontra, e neste caso ele simplesmente teria pegado a cueca que está no topo da gaveta. Ou então que se o cara é coerente mesmo, ele sempre vai querer pegar alguém, portanto não teria razão para sair com uma cueca zoada.

Qualquer ataque desse tipo seria na verdade uma tentativa de distorcer a situação do exemplo citado, e não de refutar a lógica inerente às suas proposições. Considerando como verdadeira a situação apresentada, suas decorrências são meramente lógicas, e é sua coerência interna que deve ser observada.

Decorre desta elaboração novas aquisições ao nosso léxico e o emprego de certas expressões novas em nosso cotidiano, como “faltou cueca azul aí”, no caso de uma incoerência, ou “esse cara é cueca azul”, referindo-se a uma pessoa coerente – que não necessariamente precisa usar realmente cuecas azuis.

Mas isso tudo é lógica formal. Nem me venha falar em “dialética da cueca azul”...