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6 de outubro de 2010

Notas sobre a sociabilidade contemporânea - Parte III

Com a falência dos valores de outrora, que prezavam pelo valor do sofrimento e do sacrifício como aspectos de dignificação e salvação pessoal, ficamos livres do fardo de gerações anteriores. Privações, repressões e submissões que não mais se fazem necessárias para o convívio em sociedade. Entretanto, não raro perdemos também a noção do limite, e nos vemos na obrigação de obter prazer em cada ato, em cada relação e a cada momento. O imperativo do prazer nos condena e massacra a cada oportunidade perdida, a cada momento de enfado, a cada pequeno tédio, como se toda a repressão de gerações anteriores tivesse que ser compensada no prazer extremo e contínuo da nossa.

Falhamos em ser felizes, e falhamos duplamente em nos obrigar a ser felizes em vão. A felicidade é bem de consumo, representado pelos gadgets, por nossos entorpecentes e por nossos corpos, extensões do nosso desejo insaciável de permanecer insaciáveis.

26 de abril de 2010

Lacaniano

Escrito quando fui lacaniano, num tempo remoto, em resposta à pergunta: "Os lacanianos são humanos?"


Respondo a vil pergunta que me fazes
Lacônico no uso da linguagem
Se furto-me de artigos e pronomes
Já não encontro a graça que me trazes

Se sabes da tragédia do que dizes
E pensas da comédia que é bobagem
Palavras nunca ditas já disformes
Nas bocas de pessoas infelizes

O que haverá então de desumano
Nos mau-entendedores das palavras
Desnecessários, vis lacanianos?

Será profano o significante
Se em vez de proferido então se trava
E perde-se em respostas vacilantes?

(15/04/06)