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18 de outubro de 2011

Meu primeiro bolo

Dia desses resolvi fazer um bolo. Escolhi logo um com recheio e cobertura, nada muito simples. Disse à minha mãe que fizéssemos juntos, mas sabia que era o mesmo que pedir só para observar. Sabia também que ela jamais me permitiria fazer sozinho, pois não deixaria seu filho se aventurar naquele território, para mim inóspito, mas a ela tão familiar. Pedi então que apenas desse orientações, supervisionasse meu trabalho, sem que participasse ativamente da empreitada. Claro, vã tentativa, ela já pegara os ovos e começara a separar as claras das gemas. Como aprendera a fazer isso semanas antes, intervim:
— Sai daí, mãe! Deixa que eu faço. Você concordou em ficar só olhando e me dar dicas.
Surpreendentemente, foi assim até o bolo ir ao forno. Bati a massa, as claras, misturei o fermento. Despejei a massa na fôrma (untada pela minha mãe) e levei minha criação, uma massa fofa e gostosa de misturar, ao forno.

Havia combinado de visitar uma amiga. Faríamos uma pequena reunião, da qual participariam mais dois amigos da faculdade. Durante o tempo em que o bolo assou, fiquei pensando em como seria levá-lo a eles. Se ficaria bom, se seria elogiado, se valeria a pena ter escolhido logo esse dia para iniciar uma jornada sem volta ao mundo da confeitaria.
           Fantasiava com a possibilidade do deleite de meus queridos amigos, e essa cena tornava-se cada vez mais próxima e ganhava cada vez mais cores na minha imaginação. Agora já havia cenário e cada um tinha uma fala pronta  que seria interpretada de acordo com suas aptidões cênicas. Quase liguei para algum deles, com o intuito de adiantar a notícia do bolo e inculcar neles a expectativa que até aquele momento era só minha.
     Com pequeno esforço, detive-me e pensei no oposto, seguindo os instintos pessimistas que constantemente me acompanham. E se o bolo não desse certo? Certamente eu teria de inventar uma boa desculpa. Mas, se ninguém soubesse do meu fracasso, eu poderia ficar tranquilo. Minha mãe, que tomava banho, só saiu de cena depois de me orientar, dizendo que quando se espeta um palito de dente no bolo e ele sai limpo, é sinal de que o bolo está pronto.

         Resolvi espetar o tal palito. Fechei a porta da cozinha para não entrar vento, abri o forno, puxei a fôrma com um pano para proteger as mãos. Percebi que a massa estava mole, e ao devolver o bolo ao forno, sacudi delicadamente a fôrma e a massa sacudiu junto. Fui acometido por uma súbita sensação de fracasso. Embatucado, vagava pelos cômodos da casa. Ia à sala, à cozinha, ao banheiro, à cozinha, ao quarto, à cozinha. E a cena do deleite ia aos poucos se apagando, junto com toda a alegria que já não sabia para onde tinha ido.
“Pronto, nunca mais farei um bolo na minha vida. De onde foi que eu tirei essa ideia besta de fazer bolo? Ah, esquece, deixa para lá. Ainda bem que eu não avisei ninguém.” Não me restava nada senão esperar a opinião precisa, o diagnóstico profissional, o laudo médico atestando a hora e a causa do óbito — o parecer de minha mãe.
Para meu espanto, as informações técnicas contidas no laudo afirmavam que o óbito não ocorrera e que o paciente gozava de plena saúde. Isso mesmo, minha mãe disse que o bolo estava bom, que a massa estava bem assada, com uma consistência ótima e um cheiro delicioso. A enorme nuvem de frustração que pairava sobre minha cabeça esvaiu-se e trouxe de volta aquela alegria, junto com a cena quase apagada na imaginação. “Então o bolo deu certo! Ninguém poderá contemplar meu fracasso porque... não houve fracasso!”
Faltava fazer a cobertura. Com a dose de ânimo gerada pela boa notícia, bati os ingredientes da cobertura, enquanto aguardava que o bolo esfriasse. Como eu esperava, minha mãe o cortou pela metade e montou o recheio, pois isso é mesmo coisa para profissionais. Cobri o bolo e acrescentei algo mais: castanhas picadas, que foram compradas para uma receita que desistimos de fazer.
Levei a surpresa à pequena reunião de amigos. O deleite realmente ocorreu, e foi ampliado a todos que tiveram a oportunidade de provar o bolo. Minha irmã e minha cunhada pediram a receita. Fui requisitado para fazer aquele bolo no dia dos pais, no Natal e na festa que um amigo pretende fazer em sua nova casa, assim que se mudar. O bolo ganhou vida, tornou-se independente de seu criador e superou as expectativas modestas que havia construído para ele. Agora me dê licença, que meu segundo bolo está no forno.

Nota: O texto foi escrito em julho de 2005. Outros bolos sucederam o primeiro (até aprendi a cortá-los ao meio!), mas jamais houve tanta expectativa quanto da primeira vez.

16 de fevereiro de 2011

A mancha

Começou com uma fisgada na parte interna de seu braço esquerdo, entre a axila e o cotovelo. Onde antes não havia nada, surgira uma mancha escura, de limites bem definidos, embora disforme. Confuso, passou o dedo sobre a mancha, depois lambeu o dedo e passou de novo, mas a mancha permanecia inalterada.

Passou o resto do dia pensando naquela mancha, sobre o que poderia ser e, principalmente, por que teria aparecido tão repentinamente. Por vezes se distraía, mas o pensamento logo voltava. Duas ou três vezes flagrou a si mesmo olhando para o braço, esticado a quarenta e cinco graus de seu corpo e ligeiramente torcido para fora, uma posição ridícula de manter enquanto andava pelas calçadas da cidade. À noite, veio-lhe a esperança de que a mancha não estivesse lá no dia seguinte, de que talvez se tratasse de um sonho. Nada melhor do que dormir para dar fim a um sonho.

No dia seguinte, a mancha ainda estava lá. Levantou-se com um salto e esfregou novamente o braço, os olhos ainda embebidos de sono, a imagem desfocada. Foi para o chuveiro e saiu com o braço vermelho de tanto atrito com a esponja, mas não adiantava. Mal conseguiu engolir um café e foi para o trabalho. Passou a manhã inteira com dificuldade de se concentrar, uma mancha em seus pensamentos. À tarde, conseguiu uma consulta com um dermatologista, dizendo que seu caso era urgente.

– Parece um sinal de nascença – disse o médico, ao examinar a mancha em seu braço.

– Mas como, se ontem mesmo não estava aí?

– Não há registro de algo semelhante. Em todo caso, parece apenas uma mancha inofensiva. Não há sinal de câncer, nada com que se preocupar.

– Está dizendo que não sabe o que é?

– Podemos fazer uma biópsia, mas julgo desnecessário – disse o médico, com convicção.

Optou por fazer a biópsia e foi informado de que o resultado sairia dali a uma semana. Ao sair da clínica, pensou em procurar explicações em outro lugar, como um médium, um vidente, um pai de santo ou algo do tipo, mas logo desistiu da ideia. Seu ceticismo era puro demais para ser maculado.

Passou a semana inteira sem que a semana passasse, os olhos no relógio, a mancha nas ideias. Ligava para o consultório em dias alternados, perguntando do exame, um breve chiado na ligação e o aviso de que deveria aguardar a data agendada. No trabalho, sua reputação já não era a mesma, seu rendimento caíra muito. Exasperava-se com qualquer falha de impressão que borrasse um relatório, qualquer poeira que caísse nas lentes de seus óculos. Chegou a correr de um dálmata que latiu para ele detrás de um portão.

No dia marcado, o envelope nas mãos do médico tinha seu nome, com um acento no lugar errado. O resultado do exame foi decodificado:

– Trata-se apenas de um excedente de pigmentação, como lhe havia dito. Podemos fazer um clareamento.

– Mas por quê?

– Por que fazer o clareamento? – perguntou o médico, sem entender.

– Por que essa mancha?

– Não é possível especificar a origem, a causa, mas podemos tratar...

– Por quê? – gritou, saltando da cadeira e já se voltando para a porta. – Eu preciso saber por quê!

Ao sair do consultório, a secretária tentou contê-lo, sem sucesso. Tudo o que viu foi seu braço esquerdo empurrando-a para o lado, a mancha de relance. Ganhou a rua e correu, tudo virando vulto. Parou em frente a uma lavanderia, arquejando, os braços apoiados nos joelhos. Olhou para a esquerda e viu seu braço, a mancha faltando.

– Onde está? Para onde foi? – berrava, indignado. As pessoas passavam por ele, olhando-o com espanto.

Depois disso, não se ouviu mais falar dele. A família e os poucos amigos perderam contato.

Foi visto recentemente, conversando com um canteiro de flores.

1 de fevereiro de 2011

Simbonírica 5

O volante mal cabia em suas mãos. Sentia-se sufocado por estar em um espaço tão apertado, o encosto do banco no meio de suas costas. Curvava-se sobre o painel com a cara próxima ao para-brisa.

Saiu daquele minúsculo carro e viu uma enorme placa vermelha com a palavra PARE. Seguiu andando e entrou em um bar. Queria pedir algo, mas não conseguia ver o que havia por cima do balcão. Já fora difícil entrar, e seria impossível, não fosse a escada convenientemente posta ao lado da porta, permitindo-lhe se pendurar na maçaneta.

Fora do bar, um dos dedos de seu pé ficou preso a um bueiro. Puxou o pé para desprendê-lo e, sem que entendesse como, foi engolido. A situação não tinha tamanho, como ele não o conhecia.

Grande demais para brincar, para obedecer, para acordar tarde. Pequeno demais para ser independente, para fazer uma revolução, para ser responsável.

Forte, bom, grande e belo. Pusilânime, impiedoso, insignificante e rancoroso.

O anão e o gigante.

26 de novembro de 2010

Simbonírica 4

Côncavo, convexo, plano, cromo, bule, colher, dançam imagens. Narsísifo, seu reflexo na pedra. Avaro, orava. Era o mesmo do avesso. Vã busca pela essência na representação.

Na casa de espelhos, movimento. Alto, baixo, gordo, magro, disforme sem substantivo. De tantos reflexos possíveis, tornou-se possível não mais refletir. Era todos e um só, e não estava lá.

E você?

18 de novembro de 2010

Jogo da memória

Diante dele estavam alinhados incontáveis retângulos com a face voltada para baixo. Cada vez que os virava, era arrebatado por imagens, sons, cores, cheiros, e mesmo por diferentes sentimentos.

O que o deixava confuso, no entanto, é que certas vezes, ao virar alguns retângulos, outros se viravam sozinhos, como se estivessem ligados ao primeiro por razões que ele não compreendia.

E os mesmos retângulos, quando virados novamente, nem sempre apresentavam a mesma cena, nem o mesmo conjunto de elementos, nem evocavam as mesmas reações. Dependendo de sua disposição ao virá-los, ou do jeito que os virava, mudavam. Às vezes mudavam como por vontade própria, ou de acordo com outros retângulos.

Alguns se viravam sem que ele quisesse, os retângulos insistentes. E era sempre muito difícil, quase impossível, mantê-los virados para baixo. Havia dias em que consumia quase toda sua energia nisso. E não havia regra que os fizesse sumir quando encontrados aos pares.

Cansado daquilo, ele resolveu fugir, correr, largar aqueles estranhos e inconstantes retângulos. Mas estes o acompanhavam, aonde quer que fosse. Não havia jeito de livrar-se deles. 

29 de outubro de 2010

Simbonírica 3

Perfuratriz em cena. Broca rasga a entrada. Fiat lux. Dura estaca pulsa bate e busca extrair riqueza. Ninguém ouve a mulher que brada, quebrada. Jorra a aurora de Drummond.

Desabamento.

De suas duas luas verdes correm rios que cessam. Agulha perfura lábios, linha morta fecha frincha. Exploradores confinados à claridade.

Feminilidade soterrada. Mulher barbada, barbarizada.

Sobre a aurora de Drummond: http://bit.ly/aINLHf 

27 de agosto de 2010

Simbonírica 2

Claustrofobia, num cilindro escuro. Propulsão. O capacete se choca contra o céu da boca de um suicida. Rasga a têmpora de um descuidado. Adentra a noite apertada.

No ápice do arco, a ascensão é alterada. Aliteração. Cada canalha em cadeira cativa o vê cair em câmera lenta. Catástrofe.

Em vultos, vê surgir a rede quadriculada que o ampara. Impacto. O mundo balança e para. Ninguém o espera. Está perdido. A vida passa rápido demais.

Quem chupa o homem-bala?

19 de agosto de 2010

Simbonírica 1

Andava em desespero pela Av. Doutor Arnaldo. Quase corria. Fugia, mas não sabia de quem ou para onde. Era noite. Entrou na Cardeal Arcoverde e se enfiou num boteco. Pediu para usar o banheiro, mas de sua boca só saía uma espécie de murmúrio abafado. Foi ao espelho. Seu rosto era uma alva máscara com dois furos no lugar dos olhos.

Saiu para a rua e o meio-fio era corda-bamba. Não havia pavimento. Era dia. Caminhou pela frouxa linha do horizonte. Um revólver surgira entre sua mão e sua têmpora direita. O tambor não rufava, nem havia ali lugar para o vazio. Chorava. Lágrimas rubras lhe escorriam em volta da boca e na ponta do nariz.

Um homem apontou para ele: “O senhor, meu amigo, é um palhaço. Essa linha não vai nem chega. Um movimento em falso e o senhor cai. Um deslize e o senhor estoura seus miolos. Boa tarde.”

Era tarde.

6 de julho de 2010

Homem bonito

            Ana e Eduardo, Simone e Carlos estavam num barzinho, bebendo e conversando. Depois de algumas cervejas e assuntos diversos, começaram a falar sobre um bar GLS, onde foram na semana anterior. No meio da conversa, Simone exclamou:
— Nunca vi tanto homem bonito no mesmo lugar! Pena que gostam da mesma coisa que eu.
Enquanto Eduardo deteve-se em comentar a segunda frase, Simone continuava segurando a mão de Carlos.
— Nossa... Tinha cada um lá... Meu Deus! Mas tudo bem, homem bonito não é pra namorar mesmo.
Carlos esboçou alguma reação, apertando de leve a mão de Simone, mas ainda sem contrair qualquer músculo do rosto. Ana concordou:
— É mesmo, né? E aquele professor de educação física, o Roberto?
— Nossa... Aquilo que é homem! — disse Simone. — O Roberto é tudo que uma mulher pode querer.
Eduardo olhou para Carlos, que continuava impassível. Carlos levou o copo de cerveja à boca, olhando fixamente para Simone, quase sem piscar. Ela seguiu em suas considerações:
— Mas ele também é muito pra mim. Você sabe, né, amiga? Um homem desses não dá pra namorar, todo mundo quer. Prefiro...
Dessa vez, Carlos se virou para Eduardo e perguntou alguma coisa sobre o trabalho, antes que pudesse ouvir o final da frase, talvez por achar que não suportaria o que quer que viesse depois. Eduardo não assimilou a pergunta e comentou:
— Se ela tá falando que homem bonito não é pra namorar, ela quer dizer que...
— O preço da gasolina aumentou de novo, você viu que coisa? — Carlos começou a achar que já dominara o timing da interrupção. — Onde é que a gente vai parar?
Eduardo percebeu a iminência da precipitação que antecede a tempestade. Respondeu com um simples “pois é” e pediu mais uma cerveja ao garçom. Simone continuou segurando a mão de Carlos, sem perceber qualquer incômodo causado por suas palavras. Pelo contrário, ficava cada vez mais eufórica na descrição de Roberto:
— Lindo, louro, alto, olhos azuis, um corpo maravilhoso. Fica ótimo em qualquer roupa...
— Também... com um corpo daqueles — anuiu Ana.
— E que corpo! Mas eu não quero saber de homem assim, bonito, forte... Imagine eu com um homem desses. Quer dizer, só imagine, porque só dá pra imaginar mesmo. Ai, aquela voz no pé do ouvido...
Carlos soltou a mão de Simone bruscamente. Dessa vez, foi Eduardo quem tentou desviar a atenção de Carlos.
— Você não acha um absurdo como tratam as vacas na Índia?
— Hã? Vacas? Por falar em vacas...
Carlos chegou ao limite de sua paciência e voltou-se para Simone:
— Pô, Simone! Esse cara só tem qualidades? Duvido que seja tão perfeito assim.
Ana, notando que as mãos de Carlos seguravam o copo com força quase suficiente para quebrá-lo, decidiu amenizar a situação.
— Peraí, Carlinhos, ele não é perfeito, não. O Roberto é um cara vazio, sem conteúdo. A gente fala assim porque ele é um gostoso mesmo, mas um cara desses não acrescenta nada. Não é, Simone?
— Talvez não, né? Mas... Vai saber...

(08/08/05)

4 de maio de 2010

Declaração

Você veio. Seus olhos buscavam os meus, os almejavam, os devoravam. Detinham-se neles por mais tempo que o necessário, mais que o recomendável para o tipo de distância que queríamos manter. Você perguntou de mim, dos meus planos, dos meus amores, da minha vida. O tipo de pergunta que não se faria para alguém de quem se quer manter uma distância segura. Você tinha que ir embora, mas não ia. Demorava-se em longos abraços, os olhos novamente buscando os meus, um certo olhar, um certo sorriso. Um gemido de conforto, outro abraço demorado. O portão aberto, os braços abertos, os braços fechados nos envolvendo. Cansou e foi embora. Fiquei ao portão, os olhos buscando os seus.