Jogar amor, as regras desconheço
Atuo sempre desorientado
Se tento é sempre intento fracassado
Desgarro, agarro, amarro e então pereço
Profano, danço até que hesito exausto
Espelho expresso rápido indeciso
Duvido olhar calado peito inciso
Afago, ofego e me redimo infausto
Em minha pele cada poro sua
Mentira que transpira, inspira e clama
Derrama sobre sua pele nua
A mesma farsa em dois subtraída
Sentida só depois que a fria chama
Apaga e chama à vida desmentida
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29 de dezembro de 2010
10 de dezembro de 2010
Poeta musical
Palavra do poeta musical
O músico, poeta almeja ser
Nos versos sempre oculta o bestial
Sublime melodia há de tecer
Contradição eterna, pois humana
Em jogo de esconder, que é tão banal
Nos versos a pureza sempre emana
E encobre desta forma todo o mal
Artista sofredor que nunca nota
Que a música, impossível, sempre veta
O sentimento expresso em cada nota
Angústia do poeta em doce tom
Um homem animal, feito poeta
Um animal humano feito som
(24/01/06)
O músico, poeta almeja ser
Nos versos sempre oculta o bestial
Sublime melodia há de tecer
Contradição eterna, pois humana
Em jogo de esconder, que é tão banal
Nos versos a pureza sempre emana
E encobre desta forma todo o mal
Artista sofredor que nunca nota
Que a música, impossível, sempre veta
O sentimento expresso em cada nota
Angústia do poeta em doce tom
Um homem animal, feito poeta
Um animal humano feito som
(24/01/06)
28 de setembro de 2010
Lágrimas que não são infelizes
Perdeste teu poeta no passado,
Momento esvaecido numa brisa.
Seu rosto tua mão já não alisa,
Num verbo em particípio conjugado.
Se nunca é sina, sempre breve história,
Se na memória é mártir, porém vive,
É quando a hesitação em ti incide,
Que se faz mestre o tolo de outrora.
Será que tu percebes a ironia?
Se foste do poeta a escolhida,
Por que não abraçaste a alegria?
Mas não é nada disso o que lhe dizes.
As lágrimas que choram a partida
Não são, por derramadas, infelizes.
(07/03/2007)
Momento esvaecido numa brisa.
Seu rosto tua mão já não alisa,
Num verbo em particípio conjugado.
Se nunca é sina, sempre breve história,
Se na memória é mártir, porém vive,
É quando a hesitação em ti incide,
Que se faz mestre o tolo de outrora.
Será que tu percebes a ironia?
Se foste do poeta a escolhida,
Por que não abraçaste a alegria?
Mas não é nada disso o que lhe dizes.
As lágrimas que choram a partida
Não são, por derramadas, infelizes.
(07/03/2007)
12 de junho de 2010
Soneto do 12 de junho
Difícil não ceder ao teu encanto
Não falo da embalagem tão somente
Mas muito além do jeito assim contente
Que negas que é de ti pra meu espanto
Mulher madura, jeito de menina
Menina moça, jeito de mulher
Oculta teu desejo e me alucina
E faz com meu desejo o que quiser
Perante teu olhar, que é tão profundo
Perco-me e penso estar já naufragado
Meu pobre coração, que é vagabundo
Quer ser pelo teu peito acalantado
E no teu ser o meu olhar fecundo
Despe-te, como quem dá-se ao pecado
(12/06/05)
Não falo da embalagem tão somente
Mas muito além do jeito assim contente
Que negas que é de ti pra meu espanto
Mulher madura, jeito de menina
Menina moça, jeito de mulher
Oculta teu desejo e me alucina
E faz com meu desejo o que quiser
Perante teu olhar, que é tão profundo
Perco-me e penso estar já naufragado
Meu pobre coração, que é vagabundo
Quer ser pelo teu peito acalantado
E no teu ser o meu olhar fecundo
Despe-te, como quem dá-se ao pecado
(12/06/05)
15 de maio de 2010
Oficina do sonhar II
Horas passam, olhos fitando o teto
Absorto em pensamentos divagantes
E em fantasias quase delirantes
Pairando inutilmente tal inseto
Aprisionado em meus próprios castelos
Edificados sem seus alicerces
Nos vãos por sobre as ilusões inertes
Em vão abrigam sonhos mais singelos
Procuro ferramentas no impossível
Há sonhos e ilusões em meu canteiro
Em abstrações, encontro meu concreto
Mas meu projeto é ilógico e falível
Desaba sobre mim meu cativeiro
Grande sonhador, péssimo arquiteto
(24/02/2009)
26 de abril de 2010
Lacaniano
Escrito quando fui lacaniano, num tempo remoto, em resposta à pergunta: "Os lacanianos são humanos?"
Respondo a vil pergunta que me fazes
Lacônico no uso da linguagem
Se furto-me de artigos e pronomes
Já não encontro a graça que me trazes
Se sabes da tragédia do que dizes
E pensas da comédia que é bobagem
Palavras nunca ditas já disformes
Nas bocas de pessoas infelizes
O que haverá então de desumano
Nos mau-entendedores das palavras
Desnecessários, vis lacanianos?
Será profano o significante
Se em vez de proferido então se trava
E perde-se em respostas vacilantes?
(15/04/06)
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24 de abril de 2010
Alma fria
Matei a minha sensibilidade
Ou ela está somente adormecida
Não vejo mais o breu da minha vida
Perdido ali num prédio da cidade
Dentro de mim a alma morta e fria
Não dói como doía antigamente
Enrijecido, o coração não sente
Não é tocado nem por poesia
Saudade das lamúrias de outrora
Agora já não sei como me sinto
Depois que o sofrimento foi embora
Idílico e cruel, porém intenso
Se dele não preciso é porque minto
Eu não mais sinto, mas ainda penso
(19/04/06)
22 de abril de 2010
Soneto urbano
Vivemos na cidade que acontece
Em rastros, faróis brancos e vermelhos
Velozes, motoboys levam espelhos
O que hoje choca, amanhã se esquece
Por entre nós, satélites se falam
A rua para alguns também é casa
Sob finos paletós, peles em brasa
No muro o grito surdo dos que calam
É pau, é pedra, é pó, é cola, é crack
É tudo um grande show, aplaude a claque
O sangue lava a chuva da calçada
Crianças, travestis e prostitutas
A mesma fome e dor, as mesmas lutas
Milhões de estranhos sob o mesmo nada
(24/01/2010)
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