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1 de fevereiro de 2011

Simbonírica 5

O volante mal cabia em suas mãos. Sentia-se sufocado por estar em um espaço tão apertado, o encosto do banco no meio de suas costas. Curvava-se sobre o painel com a cara próxima ao para-brisa.

Saiu daquele minúsculo carro e viu uma enorme placa vermelha com a palavra PARE. Seguiu andando e entrou em um bar. Queria pedir algo, mas não conseguia ver o que havia por cima do balcão. Já fora difícil entrar, e seria impossível, não fosse a escada convenientemente posta ao lado da porta, permitindo-lhe se pendurar na maçaneta.

Fora do bar, um dos dedos de seu pé ficou preso a um bueiro. Puxou o pé para desprendê-lo e, sem que entendesse como, foi engolido. A situação não tinha tamanho, como ele não o conhecia.

Grande demais para brincar, para obedecer, para acordar tarde. Pequeno demais para ser independente, para fazer uma revolução, para ser responsável.

Forte, bom, grande e belo. Pusilânime, impiedoso, insignificante e rancoroso.

O anão e o gigante.

26 de novembro de 2010

Simbonírica 4

Côncavo, convexo, plano, cromo, bule, colher, dançam imagens. Narsísifo, seu reflexo na pedra. Avaro, orava. Era o mesmo do avesso. Vã busca pela essência na representação.

Na casa de espelhos, movimento. Alto, baixo, gordo, magro, disforme sem substantivo. De tantos reflexos possíveis, tornou-se possível não mais refletir. Era todos e um só, e não estava lá.

E você?

29 de outubro de 2010

Simbonírica 3

Perfuratriz em cena. Broca rasga a entrada. Fiat lux. Dura estaca pulsa bate e busca extrair riqueza. Ninguém ouve a mulher que brada, quebrada. Jorra a aurora de Drummond.

Desabamento.

De suas duas luas verdes correm rios que cessam. Agulha perfura lábios, linha morta fecha frincha. Exploradores confinados à claridade.

Feminilidade soterrada. Mulher barbada, barbarizada.

Sobre a aurora de Drummond: http://bit.ly/aINLHf 

27 de agosto de 2010

Simbonírica 2

Claustrofobia, num cilindro escuro. Propulsão. O capacete se choca contra o céu da boca de um suicida. Rasga a têmpora de um descuidado. Adentra a noite apertada.

No ápice do arco, a ascensão é alterada. Aliteração. Cada canalha em cadeira cativa o vê cair em câmera lenta. Catástrofe.

Em vultos, vê surgir a rede quadriculada que o ampara. Impacto. O mundo balança e para. Ninguém o espera. Está perdido. A vida passa rápido demais.

Quem chupa o homem-bala?

19 de agosto de 2010

Simbonírica 1

Andava em desespero pela Av. Doutor Arnaldo. Quase corria. Fugia, mas não sabia de quem ou para onde. Era noite. Entrou na Cardeal Arcoverde e se enfiou num boteco. Pediu para usar o banheiro, mas de sua boca só saía uma espécie de murmúrio abafado. Foi ao espelho. Seu rosto era uma alva máscara com dois furos no lugar dos olhos.

Saiu para a rua e o meio-fio era corda-bamba. Não havia pavimento. Era dia. Caminhou pela frouxa linha do horizonte. Um revólver surgira entre sua mão e sua têmpora direita. O tambor não rufava, nem havia ali lugar para o vazio. Chorava. Lágrimas rubras lhe escorriam em volta da boca e na ponta do nariz.

Um homem apontou para ele: “O senhor, meu amigo, é um palhaço. Essa linha não vai nem chega. Um movimento em falso e o senhor cai. Um deslize e o senhor estoura seus miolos. Boa tarde.”

Era tarde.